Page 71 - VIVENDO E APRENDENDO
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WANDERLINO ARRUDA
de geografia e umas folhas de papel com rezas para segurar o fogo
até os aceiros, evitar quebrantos e mau olhados, além das apropria-
das para curar cobrelos e bicheiras. No quarto, mamãe guardava as
latas de querosene cheias de leite e os melhores biscoitos destinados
às visitas. Um dia, não sei como e nem porque, virei uma dessas
latas e o leite derramou. Com medo de apanhar, corri ao quintal,
peguei um gato e soltei lá dentro, deixando-o como responsável por
minha malinesa. Como passatempo, construía nos dias de sol, casi-
nhas de barro e ainda colocava, na frente e atrás delas, banquinhos e
jiraus destinados às flores. Lembro-me como se fosse hoje de uma
família de protestantes que mudou para o São João, morando na úl-
tima casa da parte baixa da praça. De longe, parecia serem brancos
demais, talvez por permanecer muito tempo dentro de casa. Curioso
e interessado em saber das coisas, fui lá fazer uma visita, mais do
que bem recebido, principalmente pelos filhos pequenos. Antes das
despedidas, deram-me vários folhetos com mensagens da religião
deles. Minha felicidade foi só até chegar lá em casa, porque quando
eu disse de onde vinha e que gostara muito da religião deles, mamãe
e Silvina, a uma só voz, mandaram-me jogar tudo em cima das bra-
sas do fogão:
- Cuidado e juízo, menino, pegar nisso é pecado mortal. Livra
logo de tudo e nunca mais volta lá, nunca mais!
Outro dia importante, foi a tarde da fotografia, depois de banho
demorado e de vestir roupas novas e calçar meias e sapatos novi-
nhos. Maravilha ficar fazendo caras de inteligente na frente da caixa
escura do fotógrafo Marcelino, coberta com dois panos pretos, afas-
tados para enfiar a cabeça e ver a gente de cabeça para baixo. Nair,
Dercy e eu demos o primeiro passo para fixar uma imagem de eterni-
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